Pandemia de coronavírus provoca reflexão sobre o gigantismo e a ganância no futebol e no esporte

Situações extremas provocam profundas reflexões. A pandemia do novo coronavírus apresenta excelente oportunidade para refletir sobre o universo esportivo. O esporte competitivo de alto nível faz parte da indústria do entretenimento, com investimentos, lucros – e custos – bilionários.

Eventos esportivos transmitidos ao vivo são as maiores audiências de TV no mundo. Porém, ganância e gigantismo ameaçam criar uma bolha que, se estourar, provocará danos irreversíveis.

É hora de questionar se não estão empurrando o esporte ao seu limite por querer aumentar o tamanho das fatias sem pensar nos ingredientes e no sabor do bolo?

Há movimentos críticos ao gigantismo de Olimpíadas e Copa do Mundo, os dois maiores eventos esportivos do planeta. Organizá-los custa cada vez mais caro, com exigências absurdas e uma gigantesca teia de corrupção que pod

O Mundial de Futebol e os Jogos Olímpicos nos legam memórias eternas, mas deixam um rastro bilionário de gastos cujo retorno é bastante questionável. Ao ponto de algumas cidades e países não quererem mais organizá-los.

O futebol vive há tempos uma guerra política de bastidores que opõe interesses de clubes aos de seleções. Clubes alimentam e sustentam o dia a dia do futebol. Investem para contratar e revelar jogadores, montar bons times e não gostam quando são obrigados a cedê-los para seleções nacionais por longos períodos.

Houve um tempo em que as seleções eram obrigatórias na valorização do jogador. Hoje nem tanto. Messi e Cristiano Ronaldo seriam Messi e Cristiano Ronaldo mesmo se jamais tivessem atuado pelas seleções de seus países. A Fifa, historicamente, nunca deu muita bola para o futebol de clubes. Até que encontrou uma rival política de peso na Uefa, que fez da antiga Copa dos Campeões da Europa o sucesso planetário chamado Champions League e transformou a Euro num torneio que rivaliza com a Copa do Mundo.

A Uefa quer que seus afiliados joguem cada vez mais entre eles e para isso criou a Liga das Nações. Até hoje a Fifa bate cabeça tentando criar uma competição de clubes que seja tão atraente para lucrar com os maiores craques em campo sob sua bandeira. Ainda não conseguiu. A resposta é inchar a Copa do Mundo, a partir das Eliminatórias (que já são a Copa), para encurtar os calendários sobre os quais ela não tem receita.

Certamente não é o espírito esportivo que move as peças desse tabuleiro bilionário.

Em âmbito continental e nacional, a disputa também é intensa. No Brasil, Federações querem preservar território e datas para seus estaduais, na maioria das vezes por motivações políticas. A CBF criou fogo amigo ao supervalorizar a Copa do Brasil e torná-la mais atraente – financeiramente – que o Campeonato Brasileiro.

A Conmebol, se deixarem, banaliza a Copa América ao ponto de torná-la semestral. A Libertadores cresce em número de clubes sem contrapartida técnica. Há tantos jogos e torneios que falta temporada. Cai a qualidade do espetáculo, jogadores são expostos a lesões e, como quase sempre acontece, nunca são consultados.

Os países mais boleiros da Europa têm Liga, Copa da Liga, Copa da Confederação, Copa do Rei, da Rainha, Copa disso e daquilo. É a disputa entre clubes e federações. Como classe, jogadores de futebol estão muito longe da união que represente sua importância.

Lembremos que apenas 1% dos profissionais do futebol alcança o sucesso financeiro. Além da diferença abissal entre os ganhos dos homens e das mulheres.

O esporte chamado olímpico também viveu explosão financeira sem precedentes nas últimas décadas. No alto escalão do Comitê Olímpico Internacional (COI) há uma ala conservadora que defende a redução no número de esportes nos Jogos. Outra ala propõe a adesão de novos esportes para atrair público jovem e tem saído vencedora. Vide a inclusão de skate e surfe no programa olímpico.

Antes da disparada no custo dos direitos de transmissão por TV, a partir dos anos 1990, os Jogos continentais e os Mundiais da maioria dos esportes que não dependem de índices individuais eram os principais acessos às Olimpíadas. No caso brasileiro, os Jogos Pan-americanos tinham importância vital. Um belo dia, as federações mundiais de alguns esportes decidiram virar o jogo. Vieram Pré-Olímpicos e classificatórios às pencas, reduzindo a importância esportiva e comercial dos Jogos Continentais e inflacionando o calendário.

O tênis olímpico não seduz mais os grandes jogadores e jogadoras. Natação e atletismo têm torneios que são mais atraentes para os atletas, financeiramente e esportivamente, do que um Pan, um Europeu ou Asiático. As seletivas da natação norte-americana são um evento de grande prestígio e interesse televisivo. Basquete e voleibol organizam vários pré-olímpicos, vendendo caro seus direitos de transmissão e, não raro, entregando jogos ruins e ginásios vazios.

Quando o dirigente iugoslavo Boris Stankovic costurou o acordo entre Federação Internacional de Basquete e a NBA que permitiu a participação dos jogadores de basquete profissionais americanos nas Olimpíadas, a partir de 1992, o bom e velho esporte da bola ao cesto virou uma máquina internacional de fazer dinheiro e jogos e mais jogos.

Com uma recessão mundial que se avizinha, certamente potencializada pela pandemia, o esporte será afetado. Que seja a oportunidade para racionalizar calendários, oferecer mais qualidade, preservar estrelas e garantir o interesse pelos grandes espetáculos.

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